Uma vírgula pode mudar a vontade de Deus?
Jesus disse-lhe: "Em verdade te digo:
Hoje estarás comigo no paraíso."
S. Lucas, 23, 43.
A vontade de Deus é perfeita.
Se soubéssemos todos os bens espirituais que nos aguardam se cumprirmos tudo o que a divina vontade deseja para nós, não hesitaríamos em gastar todas as nossas forças buscando ser dóceis à ela. Na leitura das Sagradas Escrituras nos deparamos com inúmeros exemplos de não cumprimento daquilo que Deus ordenou aos homens, e o principal, senão o mais emblemático, é o de Eva e Adão: era vontade de Deus que eles comessem do fruto? Ou, pelo contrário, que não o comessem? A resposta é óbvia e o que se sucedeu não é nenhuma novidade. Porém, apesar da vontade de Deus não ter sido cumprida, a permissão divina se fez presente no caso dos nossos primeiros pais. Ao longo da história, entre tantas decepções e alegrias, a divina vontade veio sendo cumprida nos mínimos detalhes, independente da ação dos homens que poderiam até atrasá-la de algum modo, até que, para dar cabo no plano de salvação que já era desejado pela Trindade, na plenitude dos tempos (cf. Gálatas 4,4), o Anjo foi enviado a Nossa Senhora para anunciar-lhe a Encarnação do Verbo de Deus, o nosso Redentor.
Ora, "na plenitude dos tempos"? É preciso entender que esta "plenitude" significa algo favorável: tudo o que aconteceu até então, desde o Gênesis, até o momento da visitação do Anjo à Maria Santíssima, nada mais foi do que a Divina vontade sendo cumprida, entre erros e acertos de todos aqueles que fizeram parte da história da salvação no Antigo Testamento, e, apesar de tudo, encontrou na Virgem o tempo do perfeito cumprimento dos planos de Deus.
Por qual razão, no início desta reflexão, eu trouxe a narrativa de São Lucas ao falar das palavras de Nosso Senhor na cruz, dirigidas a São Dimas, o chamado "Bom Ladrão"? A resposta é simples: assim como uma única vírgula ou pontuação equivocada é capaz de alterar toda ideia da doutrina da salvação, o cumprimento da vontade de Deus em suas "mínimas vírgulas" nos garante alcançarmos a amizade da Santíssima Trindade. E como se explica esta correlação entre uma vírgula ou pontuação e a vontade de Deus?
A troca de lugar de uma pontuação nesta passagem do livro de São Lucas é capaz de alterar completamente a doutrina a respeito do Juízo Particular estabelecida pelo Concílio de Florença (1431 - 1449) e pela Constituição Apostólica Benedictus Deus, do Papa Bento XII (1336), onde confirmam a doutrina católica ao ensinar que toda pessoa, ao morrer, será julgada, e este julgamento poderá condená-la ao inferno, condená-la ao purgatório para que se purifique ou que simplesmente seja salva alcançando o paraíso. E como uma única pontuação mal colocada seria capaz de alterar toda essa doutrina a respeito do juízo, da salvação e da condenação?
Na versão do Padre Matos Soares (1953), considerada uma das melhores, senão a melhor tradução das Sagradas Escrituras na língua portuguesa, lemos:
"Jesus disse-lhe: "Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no paraíso."
"E ele lhe disse: "Eu lhe digo hoje: Estarás comigo no Paraíso."
E quando 'estarás (?)', poderíamos perguntar. A doutrina a respeito do juízo particular simplesmente foi descartada com o versículo tendo sido escrito desta forma. Sutil, minúsculo, mas suficiente para mudar toda a doutrina católica. A mudança é sutil e discreta, do tamanho de uma vírgula, mas explica com perfeição que uma pontuação no lugar errado é capaz de destruir todo o corpo doutrinal a respeito do juízo particular e da salvação eterna. Não iremos nos aprofundar neste momento na doutrina dos Testemunhas de Jeová, para assim não perdermos o nosso precioso tempo naquilo que não é católico e que não nos interessa. Afinal, a Igreja já se manifestou infalivelmente a respeito deste assunto.
Esta mesma lógica também pode ser aplicada na vida espiritual, no que toca ao cumprimento da vontade de Deus. Ora, se Cristo é o Verbo (a Palavra) do Pai, logo, tudo aquilo que o Senhor revelou por meio da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, que se fez carne e habitou entre nós e que ensinou aos santos Apóstolos toda Sua puríssima doutrina, imaculada e sem erros, merece ser guardado e conservado sem mancha, e de igual modo, a alma que deseja alcançar a perfeição e a união perfeita com Deus deve buscar cumprir a vontade divina em todas as suas mínimas 'vírgulas' e pontuações.
O cumprimento da vontade de Deus é a garantia da santificação das nossas almas, de uma vida livre de perturbações espirituais, de um caminho seguro para a perfeição e da verdadeira felicidade interior ainda aqui neste mundo. Para que se cumpra a vontade Deus, não são necessários grandes malabarismos, basta que sejam cumpridas as obrigações inerentes a cada estado de vida.
Para que a alma não tenha grandes dúvidas sobre qual caminho o Bom Jesus deseja que ela siga, basta um desejo sincero, lastreado em humildade para unir-se à divina vontade. Oração simples e com delicadeza de espírito; silenciando a alma de todos os ruídos externos e internos. Que o espírito se cale e não fale, apenas busque ouvir. Que invocando o Espírito Santo não se entregue à prepotência de crer que em poucos minutos ocorrerá alguma comunicação no íntimo da alma: que este erro não seja cometido. Tal erro afasta a doce presença do Espírito Santo na alma, freando bruscamente toda e qualquer chance de clareza interior. Se a alma realmente deseja conhecer a vontade de Deus, que ela se cale e aguarde. Apenas isso. O Espírito Santo comunicará no tempo que lhe aprouver, ou melhor, "na plenitude do tempo" próprio da alma.
É uma equação simples: a divina Providência sabe exatamente que o tempo da alma não é o mesmo tempo do cumprimento dos desígnios de Deus, portanto, a resignação interior será o primeiro passo para este caminho de perfeição ser trilhado a partir da sincera busca pelo cumprimento da vontade do Céu.
Quando a alma passar a compreender melhor que o silêncio de Deus também é manifestação da Sua sagrada vontade, a espera se converterá em algo dócil, pois, a alma terá firme esperança de que o Divino Senhor não a abandonou, e que tal espera, nada mais é do que o sutil e delicado cumprimento da preparação para a "plenitude do tempo" que a nossa alma tanto almeja, e somente assim tenhamos consciência de que receberemos não a visita de um anjo, mas sim do próprio Cristo que nos conduzirá suavemente, como uma leve brisa (cf. Rs 19,12–13) rumo ao doce cumprimento da Sua santa vontade.
Tenhamos paciência e docilidade: Cristo falará no tempo certo.
Não busquemos apressar a manifestação da vontade divina em nossas vidas, e, agindo dessa forma, atrasemos o cumprimento daquilo que o Bom Deus deseja construir nas nossas almas junto aos progressos espirituais que tanto necessitamos para humildemente nos aproximarmos Dele.
P.S.:
Não é necessário recordar que não somente uma vírgula má colocada é capaz de causar um estrago no cumprimento da vontade de Deus nas nossas almas, mas é essencial lembrarmos da questão do "Iota Unum", no caso da crise do Arianismo. Um "jota" no lugar errado levou a Igreja para uma crise inimaginável até então, resultando nas consecutivas excomunhões sofridas por Santo Atanásio, que tanto lutou para defender a pureza da fé sem alterações e sem "vírgulas", ou melhor, "jotas", no lugar errado.
Lembremos, mais uma vez, as doces palavras saídas da boca de Jesus Cristo:
"Porque em verdade vos digo: antes passarão o céu e a terra, que passe da lei um só jota ou um ápice, sem que tudo seja cumprido" (cf. S. Mt 5, 18).
Isso, porém, é matéria para um outro artigo.
Rodrigo Luna

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