As obras e o zelo são desejados por Deus

Hoje apresento o Abade Jean-Baptiste Chautard, da ordem Cisterciense, ramo de estrita observância da regra beneditina. Uma alma profundamente contemplativa, mas que detinha um ardor apostólico de surpreender os maiores missionários, pois tamanha foi a sua vida ativa, que chamou atenção até mesmo de Papas, como Leão XIII, São Pio X e Bento XV. O trecho abaixo é da sua magnífica obra "A Alma de Todo o Apostolado", e não tenho dúvidas de que estas linhas farão um enorme bem às almas que as ler.

Posteriormente trarei também a sua história.

Boa leitura!


Abade Jean-Baptiste Chautard


1. As obras e, portanto, o zelo, são desejados a Deus.

Apanágio da natureza divina é ser sumamente liberal. Deus é bondade infinita. A bondade tão somente aspira a difundir-se e a comunicar o bem que desfruta.

A vida mortal de nosso Senhor foi sempre uma contínua manifestação dessa inesgotável liberalidade. O Evangelho mostra-nos o Redentor semeando, por seu caminho, os tesouros do amor de um Coração ávido de atrair os homens para a verdade, para a vida.

Esta chama de apostolado foi, por Jesus Cristo, comunicada à Igreja, dádiva do seu amor, difusão da sua vida, manifestação da sua verdade, resplendor da sua santidade. Animada pelos mesmos ardores, a Esposa mística de Cristo continua, no decurso dos séculos, a obra de apostolado do seu divino Exemplar.

Desígnio admirável, lei universal estabelecida pela Providência! É por meio do homem que o homem deve conhecer o caminho da salvação. Foi somente Jesus Cristo quem derramou o sangue que resgata o mundo. Por si só, Ele também teria podido aplicar a virtude desse sangue e operar de modo imediato sobre as almas, como faz pela Eucaristia. Quis, porém, colaboradores na distribuição dos seus benefícios. Por quê? Sem dúvida porque a Majestade divina assim o exigia; mas não menos a isso o compeliam as suas ternuras pelo homem. E, se o mais eminente dos monarcas tem toda a conveniência em governar, na maioria dos casos, por intermédio dos seus ministros, que condescendência da parte de Deus dignar-se associar pobres criaturas a seus labores e à sua glória!

Nascida sobre a cruz, saída do lado traspassado do Salvador, a Igreja perpetua, por meio do ministério apostólico, a ação benéfica e redentora do Homem-Deus. Desejado por Jesus Cristo, torna-se esse ministério o fator essencial da propagação dessa Igreja pelas nações e o mais habitual instrumento das suas conquistas.

Na primeira linha, o clero, cuja hierarquia constitui o quadro do exército de Cristo, clero ilustrado por tantos bispos e sacerdotes santos e zelosos, e tão gloriosamente honrado pela recente canonização do santo Cura de Ars. Ao lado desse clero oficial, desde as origens do cristianismo surgiram companhias de voluntários, verdadeiros corpos de escol, cuja perpétua e luxuriante vegetação há de ser sempre um dos fenômenos mais patentes da vitalidade da Igreja.

Logo nos primeiros séculos, aparecem as Ordens contemplativas, cuja oração incessante e as rudes macerações tão poderosamente contribuíram para a conversão do mundo pagão. Na Idade Média, surgem as Ordens predicantes, as Ordens mendicantes, as Ordens militares e as Ordens votadas à heroica missão do resgate dos cativos em poder dos infiéis. Enfim, os tempos modernos veem nascer enorme quantidade de milícias docentes, Institutos, Sociedades de Missionários, Congregações de toda espécie, cuja missão é espalhar o bem espiritual e corporal sob todas as formas.

Além disso, em todas as épocas de sua história, a Igreja encontrou colaboradores preciosos nos simples fiéis, como esses fervorosos católicos, hoje uma legião, “pessoas de obras”, segundo a expressão consagrada: corações ardentes, os quais, sabendo unir suas forças, põem, sem reserva, ao serviço de nossa Mãe comum, tempo, capacidades, fortuna, sacrificando amiúde sua liberdade e, às vezes, até seu próprio sangue.

Como é, certamente, admirável e consolador o espetáculo dessa florescência providencial de obras, nascendo no momento preciso e adaptando-se tão maravilhosamente às circunstâncias! Todas as necessidades novas para satisfazer, todos os perigos a conjurar — a história da Igreja o atesta — viram, invariavelmente, aparecer a instituição reclamada pelas exigências do momento.

Assim é que, em nossa época, vemos oporem-se a males de singular gravidade uma multidão de obras, que ontem ainda mal se conheciam: catecismos de preparação para a primeira comunhão, catecismos de perseverança, catecismos para as crianças abandonadas, congregações, confrarias, reuniões e retiros para homens e moços, para senhoras e donzelas, apostolado da oração, apostolado da caridade, ligas para o repouso dominical, patronatos, círculos católicos, obras militares, escolas livres, boa imprensa etc.; enfim, todas as formas de apostolado, suscitadas por esse espírito que inflamava a alma de um São Paulo: Ego autem libentissime impendam et superimpendar ipse pro animabus vestris, e que deseja espargir por toda parte os benefícios do sangue de Jesus Cristo.

Oxalá estas humildes páginas sejam de proveito aos soldados que, inteiramente cheios de zelo e de ardor por sua nobre missão, se expõem, precisamente por causa da atividade que desenvolvem, ao perigo de não serem, antes de tudo, homens de vida interior; e que, se um dia fossem por esse motivo punidos, tanto com maus êxitos aparentemente inexplicáveis como com graves danos espirituais, poderiam ser tentados a abandonar a luta e a voltar desanimados para a tenda.

Os pensamentos desenvolvidos neste livro a nós mesmos nos auxiliaram na luta contra a exteriorização pelas obras. Oxalá possam eles evitar a alguns esses desgostos e guiar melhor a sua coragem, mostrando-lhes que o Deus das obras jamais deve ser abandonado pelas obras de Deus e que o Væ enim mihi est si non evangelizavero não nos outorga o direito de olvidar o Quid enim prodest homini, si mundum universum lucretur, animæ vero suæ detrimentum patiatur.

Os pais e mães de família, para quem a Introdução à vida devota não é livro antiquado, os esposos cristãos, que se consideram um para com o outro obrigados a um apostolado que, ao mesmo tempo, exercem sobre seus filhos para formá-los no amor e na imitação do Salvador, podem também facilmente aplicar a si os ensinamentos dados por estas páginas modestas. Oxalá eles compreendam melhor a necessidade de uma vida tão piedosa quanto interior, para tornarem eficaz o seu zelo e perfumarem seu lar com o espírito de Jesus Cristo e dessa paz inalterável que, malgrado as provações, há de ser sempre o apanágio das famílias profundamente cristãs.

 

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