Caiu depois do Batismo? Eis o que você pode fazer

Precisamos compreender Cristo como sendo o fim último da nossa vida.

Nascemos, vivemos e devemos morrer para Cristo. 

Tal compreensão deve guiar-nos por toda a nossa existência. Cristo encarnou-se no ventre da Virgem Santíssima, fez-se Homem e por nós foi Crucificado e morto, para salvar-nos do jugo do pecado. Ao terceiro dia Ressuscitou dos mortos e ascendeu ao Céu. Deixou-nos a Santa Igreja Católica, um Vigário visível e um colégio de bispos, cujos quais, indo para todos os cantos do mundo, deixou-nos sacerdotes que chegam hoje até nós por meio de ordens religiosas e dioceses espalhadas pelo mundo inteiro. Uma das formas deixadas por Cristo para obtermos o perdão dos nossos pecados foi o Sacramento da Penitência, ou, confissão dos pecados. 

Hoje trago um trecho da magnífica obra Jesus Cristo - Vida da Alma, do Beato (Dom) Columba Marmion, grande abade beneditino, asceta e mestre da vida espiritual.

A espiritualidade beneditina, baseada na solidão e íntima união com Deus a partir da renúncia de si mesmo, tem muito a nos ensinar a respeito do abnegar-se por amor aos Céus. E no capítulo sobre O Sacramento e a virtude da penitência, Dom Marmion nos ensina de modo magistral a respeito da importância da penitência, colocando-a como uma virtude e explicando diferenças substanciais entre o sacramento do batismo e o da confissão dos pecados. É, de certo, uma leitura riquíssima que fará com que o leitor perceba como a espiritualidade beneditina busca tratar dos assuntos divinos com a precisão da teologia católica tradicional.

Boa leitura!

Dom Columba Marmion, Abade de Maredsous

Explicando aos primeiros cristãos o simbolismo do Batismo, São Paulo escreve-lhes que eles já não devem aniquilar pelo pecado a vida divina recebida de Cristo: «Não sirvamos mais ao pecado» (Rm 6, 6). O Concílio de Trento diz que "Se a nossa gratidão a Deus, que nos fez seus filhos pelo Batismo, fosse igual a este dom inefável, conservaríamos intacta e imaculada a graça recebida neste primeiro sacramento" (Sess. XIV, cap. 1).

Há almas privilegiadas, verdadeiramente abençoadas, que preservam a vida divina, sem nunca a perder, mas há outras que se deixam levar pelo pecado. Mas será que estes últimos têm algum meio de recuperar a graça, de ressuscitar para a vida de Cristo? Sim, o meio existe; Cristo Jesus, o Homem-Deus, estabeleceu um sacramento, o Sacramento da Penitência, um admirável monumento de sabedoria e misericórdia divinas, no qual Deus soube harmonizar as duas coisas: a sua glorificação e o nosso perdão.

Como, pelo perdão dos pecados, Deus manifesta a sua misericórdia

Conheceis aquela bela oração que a Igreja, governada pelo Espírito Santo, põe nos nossos lábios no décimo domingo depois de Pentecostes: «Ó Deus, que fazes evidenciar a tua omnipotência, sobretudo perdoando-nos e tendo misericórdia de nós: derrama abundantemente esta misericórdia sobre as nossas almas».

Há uma revelação que Deus nos faz pela boca da Igreja; perdoando-nos, tendo piedade, tendo misericórdia, Deus manifesta principalmente, maxime, o seu poder. Noutra oração, a Igreja diz que "um dos atributos mais exclusivos de Deus é sempre ter compaixão e perdoar." (Orações de petição e Litanias).

O perdão supõe ofensas, dívidas a serem perdoadas. A piedade e a misericórdia só podem existir onde há misérias. O que é, de facto, ser misericordioso? Colocar, de certo modo, sobre o próprio coração, a miséria dos outros [+S. Tomás, I, q.21, a.3].

Ora, Deus é a própria bondade, o amor infinito, «Deus é caridade» (1 Jo 4, 8); e, diante da miséria, a bondade e o amor convertem-se em misericórdia; por isso dizemos a Deus: "Tu és, meu Deus, a minha misericórdia!" (Sl 58, 18). Nesta oração, a Igreja pede a Deus a abundância da sua misericórdia. Porquê? Porque as nossas misérias são imensas, e delas poderíamos dizer: "o abismo das nossas misérias, das nossas faltas, dos nossos pecados, clama ao abismo da misericórdia divina".

Somos todos, de facto, miseráveis, somos todos pecadores, uns mais do que outros, em maior ou menor grau, diz o apóstolo Tiago (Tiago 3, 2); e São João: «Se cremos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não somos verdadeiros » (1 Jo 1, 8).

E é ainda mais rigoroso quando afirma que, ao falar deste modo, «fazemos de Deus um mentiroso» (Ibid. 1, 10). Porquê? Porque Deus nos obriga a todos a dizer: "Perdoai-nos as nossas ofensas". Deus não nos forçaria a este pedido se não tivéssemos dívidas (debita).

Somos todos pecadores, e isto é tão verdade que o Concílio de Trento condenou aqueles que dizem que se podem evitar todos os pecados, principalmente os pecados veniais, sem um especial privilégio de Deus, como o que foi concedido à Bem-aventurada Virgem Maria (Sess. VI, can. 22).

Essa é precisamente a nossa desgraça. Mas não deve desanimar-nos, pois Deus sabe-o e, por isso, tem piedade de nós, «como um pai que se compadece dos seus filhos» (Sl 102, 13). Pois sabe não só que fomos tirados do nada, mas também feitos de barro (Ib. 14). "Porque Ele sabe de que matéria somos feitos." Ele conhece esta mistura de carne e sangue, músculos e nervos, misérias e fraquezas que constituem o ser humano e tornam possível o pecado e o retorno a Deus, não uma vez, mas setenta vezes sete, como diz Nosso Senhor, isto é, um número indefinido de vezes (Mt 18, 22).

Deus põe toda a sua glória em aliviar a nossa miséria e perdoar-nos as nossas faltas; Deus quer ser glorificado manifestando a sua misericórdia para conosco, por causa das satisfações dadas pelo seu Filho muito amado.

Na eternidade cantaremos, diz São João, um cântico a Deus e ao Cordeiro. Que cântico será esse? É o Sanctus dos anjos? Deus não poupou uma parte desses espíritos puros; com a sua primeira rebelião fulminou-os para sempre, porque não padeciam as fraquezas nem as misérias que são nossa herança. Os anjos fiéis cantam a santidade de Deus, aquela santidade que não pôde suportar por um único momento a deserção dos rebeldes.

Que será o nosso cântico? O da misericórdia: «Cantarei para sempre as misericórdias do Senhor» (Sl 88, 2); este versículo do salmista será como o refrão do cântico de amor que entoaremos a Deus. E que cantaremos ao Cordeiro? «Tu nos redimistes, Senhor, com o teu precioso sangue» (Ap 5, 9), tal foi a piedade que nos mostraste que derramaste o teu sangue para nos salvar das nossas misérias, para nos libertar dos nossos pecados, como repetimos diariamente, em teu nome na Santa Missa: «Eis o cálice do meu sangue que foi derramado para a remissão dos pecados».

Sim, há uma imensa glória a Deus nesta misericórdia que Ele usa para os pecadores que se acolhem às satisfações do Seu Filho Jesus Cristo, e por isso é compreensivo que uma das maiores afrontas que podemos fazer a Deus é duvidar da sua misericórdia e do perdão que nos é concedido em consideração dos méritos de Jesus Cristo.

No entanto, depois do Batismo, este perdão está condicionado a que façamos «frutos dignos de penitência» (Lc 3, 8). Há, diz o Santo Concílio de Trento, uma grande diferença entre o Batismo e o sacramento da Penitência.

É verdade que, para que um adulto receba dignamente o Batismo, é necessário que o batizado sinta aversão ao pecado e tenha um firme propósito de fugir dele a todo custo; mas não lhe é exigida satisfação especial nem reparação. Lede as cerimónias de administração do Batismo; não encontrareis qualquer menção a obras de penitência a praticar; é uma remissão total e absoluta da falta e da penalidade incorrida pela falta.

Porquê? Porque este sacramento, que é o primeiro que recebemos, constitui as primícias do sangue de Jesus, comunicadas à alma. Mas, continua o Concílio: se depois do Batismo, uma vez unidos a Jesus Cristo, libertados da escravidão do pecado e feitos templos do Espírito Santo, voluntariamente caímos de volta ao pecado, não podemos recuperar a graça e a vida senão fazendo penitência; assim foi estabelecido, e não sem conveniência, pela justiça divina (Sess. XIV, caps. II e III).

Ora, a penitência pode ser considerada como sacramento e como virtude que se manifesta através de atos que lhe são próprios.


Continua...

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