Consolações: apenas devemos buscá-las em Deus

A Imitação de Cristo é um clássico da literatura espiritual católica. Entretanto, noto que se  trata de um tesouro ainda desconhecido entre os católicos, e mais ainda, percebo que entre muitos esta obra é desprezada justamente por ser muito acessível a todos.

Lanço um desafio ao leitor: a leitura de um capítulo da Imitação de Cristo por dia, com recolhimento, meditado e com sincero desejo de se colocar em prática os conselhos ali contidos. Eu não tenho dúvidas de que no fim do trigésimo dia a sua alma estará com um desejo sobrenatural de progredir na vida espiritual.

Me propus a ler a Imitação de Cristo do início ao fim, como livro de cabeceira. Quando termino, reinicio a leitura. Posso dizer que as impressões que são deixadas na minha alma me surpreendem a cada dia. Este livro é indispensável em qualquer lar católico e pode ser usado em todos os momentos do dia a dia: como leitura espiritual; leitura meditativa; consulta para certos pontos abordados e que a alma possa se identificar em determinado momento; diante do Santíssimo Sacramento, na adoração Eucarística (Livro IV); na direção espiritual... Muitas são as possibilidades que a Imitação de Cristo traz para a alma e é de se surpreender como Tomás de Kempis, o monge agostiniano que a escreveu, possuía um intelecto extraordinariamente iluminado pela graça divina.

Trago hoje o Livro III, Da Consolação Interior, capítulo 16: Como só em Deus se há de buscar a verdadeira consolação. E ao final, como complemento ao tema, há uma reflexão de São Francisco de Sales, outro mestre da vida espiritual, que fez parte da construção da minha alma e que posteriormente será tema de postagens aqui no blog.

Boa leitura a todos!

E o desafio foi lançado.

Se tiver coragem, o faça e depois de um mês me diga em qual estado se encontra a sua alma.

1. Tudo que posso desejar ou procurar para meu consolo não o espero nesta vida, mas na futura, porque ainda que eu tivesse todas as consolações do mundo e pudesse fruir todas as suas delícias, certo é que não poderiam durar muito tempo. 

Portanto, considera, ó minha alma, que não poderás achar consolo pleno e alegria perfeita senão em Deus, que consola os pobres e agasalha os humildes. 

Espera um pouco, ó minha alma, espera a divina promessa, e no céu terás todos os bens em abundância. Se desordenadamente desejares os bens presentes, perderás os eternos e celestes. Usa das coisas temporais, mas deseja as eternas. Não te pode satisfazer bem algum temporal, porque não foste criada para gozá-los. 

2. Ainda que possuísses todos os bens criados, não poderias ser feliz e estar contente, porque só em Deus, criador de tudo, consiste tua bem-aventurança e felicidade; não qual a entendem e louvam os amadores do mundo, mas como a esperam os bons servos de Cristo, e às vezes antegozam as pessoas espirituais e limpas de coração, cuja conversação está nos céus (Fl 3,20). Curto e vão é todo consolo humano; bendita e verdadeira a consolação que a verdade nos comunica interiormente. 

O homem devoto em toda parte traz consigo seu consolador, Jesus, e lhe diz: Assisti-me, Senhor Jesus, em todo lugar e tempo. 

Seja, pois, esta a minha consolação: o carecer voluntariamente de toda consolação humana. E se me faltar também vosso consolo, seja para mim vossa vontade, que justamente me experimenta, a suprema consolação. Porque não dura sempre a vossa ira, nem nos ameaçareis eternamente (Sl 102,9).


Reflexão de São Francisco de Sales (Sermon pour le jour de l’Annonciation, IV, 307 e 308):

Se quiseres, toma todos os grandes da terra e considera suas condições, umas depois das outras e verás que eles nunca estão perfeitamente satisfeitos, porque, se são ricos e alcançaram os mais altos escalões da dignidade do mundo, sempre desejam mais... Não acharíamos que é bem louco e pouco ajuizado um comerciante que se esforçasse extremamente para fazer um negócio do qual só tiraria prejuízo?

Portanto, aqueles que sabem com certeza, pois têm seu entendimento esclarecido com a luz celeste, que só Deus pode dar um verdadeiro e perfeito contentamento aos seus corações, não fazem um negócio vão e inútil, alojando em seus corações as criaturas inanimadas, ou então esses outros seres humanos como eles? 

Os bens terrenos, as casas, o ouro, a prata, as riquezas e até as honras e dignidades que nossa ambição nos faz perseguir e buscar tão desesperadamente, não são negócios muito vãos, uma vez que tudo isto é perecível? 

Não estamos muito enganados ao colocar nisto o nosso coração, visto que todas essas coisas, em vez de proporcionar-lhe repouso e quietude, não lhe fornecem senão objetos de pressa e de inquietação, seja para conservá-los ou aumentá-los, se a pessoa já os tem, ou para adquiri-los se ainda não os tem?

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