Cuidamos dos nossos olhares e da nossa língua?

É certo que vivemos no mundo como leigos devotos que desejam alcançar o Céu. 

Ler a vida de santos religiosos nos trazem profundas inspirações, porém, devemos ter a prudência em entender que tais santos, sejam ele sacerdotes, frades, monges ou eremitas, viveram debaixo de uma regra de vida própria, e nós, vivendo no mundo, não estamos sujeitos a tais regras e exigências comuns aos que optam por tais formas de vida. Entretanto, observar a vida dos santos religiosos não nos impedem de adaptar certas regras ou diretrizes espirituais ao nosso atual estado de vida secular. 

Como exemplo a fim de elucidar esta questão, tomemos o voto de pobreza: um franciscano deve viver a pobreza total, tal qual São Francisco de Assis desejou aos seus filhos; um leigo que vive no século, dadas as circunstâncias próprias da vida, não poderia almejar idêntica pobreza da forma como os franciscanos devem almejar, porém, ele pode adaptar a pobreza para certos aspectos da sua vida, como em adotar uma quantidade limitada de roupas, doar parte do seu salário aos pobres etc. O mesmo serve para o voto de castidade: enquanto um religioso não pode sequer cogitar quebrar este voto por pensamentos, palavras e atos, nada impediria um leigo, solteiro, de cortejar uma moça e assim contrair matrimônio. 

Desta forma, procuramos esclarecer que a vida dos santos são um verdadeiro tesouro espiritual onde podemos colher numerosos frutos para as nossas almas, mas sempre levando em consideração as questões próprias do estado de vida de cada indivíduo.

Sendo assim, trago hoje o capítulo 86 do manuscrito Espelho de Perfeição, escrito por Frei Leão, secretário e íntimo companheiro de São Francisco de Assis, a respeito da pureza no olhar. Certamente não será difícil entendermos como podemos aplicar tal exemplo nas nossas vidas, inspirando-nos pureza no olhar e no falar, especialmente no nosso dia-a-dia, onde estamos sujeitos às leviandades e impurezas nas conversas do cotidiano, e seguindo o exemplo de São Francisco e dos seus santos seguidores, possamos cultivar a castidade para assim progredirmos na vida espiritual conquistando mais méritos diante de Nosso Senhor Jesus Cristo no dia do nosso juízo particular.

Boa leitura a todos!



Da forma como São Francisco descrevia os olhares impudicos para incitar os frades à honestidade.


Entre as virtudes que amava e desejava que existissem nos frades, depois do fundamento da santa humildade, amava principalmente a beleza e pureza da castidade. Por isso, querendo ensinar os frades a ter olhares pudicos, costumava representar os olhares impudicos com este enigma (cf. 1Cor 13,12; Sl 118,120): 

Um rei piedoso e poderoso enviou su­cessivamente dois mensageiros à rainha. 

O primeiro voltou e referiu palavra por palavra, sem dizer nada da rai­nha. Na verdade, sabiamente manteve seus olhos na cabeça (cf. Ec 12,14) e não os levantou para a rainha. 

Voltou o outro e, depois de dizer poucas palavras, teceu uma longa história sobre a beleza da rainha e concluiu: 

“Na verdade, senhor, vi uma mulher belís­sima! Feliz quem a possui”, disse o segundo mensageiro.

Disse-lhe o rei: “Servo mau (cf. Mt 18,32), lançaste olha­res impudicos para minha esposa! É claro que sutilmente quiseste comprar aquela que viste”.

Então, mandou chamar de volta o primeiro e lhe perguntou: “O que pensas da rainha?" 

Com sagacidade, ele respondeu: “Otimamente, pois me ouviu de boa vontade e com pa­ciência”

Disse o rei: “Existe nela alguma formosura?” 

Ele res­pondeu: “Meu senhor, compete a ti ver e julgar isso; meu dever era somente dizer a mensagem”.

Então o rei proferiu a sentença: “Tu tens olhares castos: sê mais casto de corpo no meu aposento e goza de minhas delícias. Este im­pudico, porém, saia da casa para que não profane meu leito”.

E acrescentava: “Quem não deveria temer olhar para a espo­sa de Cristo?”

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