O fariseu não estava errado... até certo ponto

Sei que o título deste breve artigo é estranho e não vai ao encontro do que aprendemos durante a nossa caminhada espiritual. Mas algo muito sutil precisa ser sublinhado quando se fala na parábola do fariseu e do publicano, presente no Evangelho de São Lucas, capítulo 18, 9-14:


"Disse também esta parábola a uns que confiavam muito em si mesmos, como se fossem justos, e desprezavam os outros.

Subiram dois homens ao templo a fazer oração: um era fariseu, outro publicano. O fariseu, de pé, orava no seu interior desta forma: “Graças te dou, ó Deus, porque não sou como os outros homens: ladrões, injustos, adúlteros, nem como este publicano. Jejuo duas vezes na semana; pago o dízimo de tudo o que possuo.”

O publicano, porém, conservando-se à distância, não ousava sequer levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: “Meu Deus, tem piedade de mim, pecador.”

Digo-vos que este voltou justificado para sua casa, o outro não; porque quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.”

 

Em alguns momentos do ano, uma discussão sempre se faz presente em alguns meios católicos: dentro da oitava de alguma festa, pode-se comer carne na sexta-feira? Há sacerdotes que instruem os seus fiéis a não comerem carne, assim como há outros que os liberam da abstinência nesses casos. A norma tradicional da Santa Igreja é clara: nas sextas-feiras, a abstinência é exigida, salvo em casos de solenidades. Nas oitavas, seja de Páscoa ou de Natal, a abstinência é mantida. Um afrouxamento dessa disciplina ocorreu com a promulgação do Código de Direito Canônico de 1983. Agora, essa disciplina pode ser comutada por alguma obra de caridade. Tal mudança pode gerar escândalo em alguns, especialmente entre aqueles que optam por seguir a disciplina do antigo Direito Canônico. É preciso reconhecer que tal matéria não se trata de dogma de fé. Parece óbvio assinalar isso, mas é um detalhe que, em alguns meios, passa a ter o mesmo peso e nível de escândalo como se um dogma estivesse sendo colocado em dúvida. Vale salientar que a comutação não é um passe livre para a extinção da abstinência de carne nas sextas-feiras, mas que se trata, conforme disposto pela disciplina eclesiástica, de um ato de substituição por algum ato de caridade ou de piedade.

Convém aqui fazer uma distinção importante: nem tudo na vida da Igreja possui o mesmo grau de obrigatoriedade. O dogma é uma verdade revelada por Deus e proposta como tal pela Igreja, exigindo adesão de fé; a doutrina compreende os ensinamentos que orientam a vida cristã; já a disciplina refere-se às normas práticas que podem variar ao longo do tempo, conforme as necessidades dos tempos (sim, caros irmãos, esta expressão não é modernista, apesar deles terem se apoderado de tal ideia com muita propriedade). A confusão desses níveis se torna fonte de muitos equívocos e pode levar à construção de argumentos duvidosos e desonestos.

Apesar de sermos a favor da manutenção da abstinência de carne nas sextas-feiras, o certo precisa ser dito (e aqui, repetido!): essa disciplina foi afrouxada licitamente. Não estamos tratando de dogmas ou de uma violação de natureza gravíssima. Caso alguém pense distintamente, veja grande escândalo nessa mudança e opte pelo modelo antigo (o que não há problema algum em seguir), é necessário também que seja feita uma reflexão a respeito dos antigos costumes sobre o jejum eucarístico.

Durante séculos, a Igreja manteve a prática de um rigoroso jejum desde a meia-noite até a comunhão; essa disciplina começou a ser mitigada por Pio XII, que, na constituição Christus Dominus (1953), introduziu exceções (como para doentes e o uso de água) e, depois, no motu proprio Sacram Communionem (1957), estabeleceu um jejum de três horas para alimentos sólidos e bebidas alcoólicas e de uma hora para bebidas não alcoólicas; posteriormente, Paulo VI, dentro das novas diretrizes "pastorais" do Concílio Vaticano II, simplificou a disciplina, já em 1964, para apenas uma hora antes da comunhão para todos os fiéis, mantendo a exceção de água e remédios, norma que foi definitivamente consolidada no Código de Direito Canônico (cân. 919), permanecendo em vigor até hoje.

Como outro exemplo, vamos cogitar dois fiéis: um que observa rigorosamente práticas antigas com grande exatidão, e outro que segue apenas o mínimo exigido pela Igreja. Aos olhos humanos, o primeiro pode parecer mais perfeito; porém, se este se deixa levar pela soberba, enquanto o outro vive com humildade e confiança na graça divina, é este último que mais se aproxima da justificação, assim como o Santo Evangelho deixa claro.

O que entendemos disso?

Apesar de se tratar de um meio (jejum) para se atingir de forma mais perfeita um fim (a comunhão eucarística), a disciplina foi progressivamente sendo afrouxada. É muito mais fácil vermos pessoas mantendo a disciplina da abstinência de carne nas sextas-feiras do que pessoas que voluntariamente ficam sem se alimentar desde a meia-noite do dia anterior ou, ao menos, por três horas antes. Algumas coisas são mais convenientes do que outras, a depender do contexto e do impacto na vida pessoal. Mas aonde quero chegar?


Um fiel é livre para seguir a abstinência segundo os antigos costumes, assim como também pode optar pela comutação proposta nos novos.

Um fiel é livre para seguir o jejum eucarístico segundo os antigos costumes, assim como pode optar por seguir os moldes propostos na década de 1960, com apenas uma hora de jejum.

 

Por qual razão o primeiro caso soa menos plausível do que o segundo, se ambos se tratam de disciplina, e não de dogma ou doutrina de fé?

É uma reflexão deveras provocativa; porém, esta é a pura e simples verdade. As duas formas são possíveis hoje, sendo o fiel igualmente amparado pela Igreja em ambos os casos. Não deveria existir um grande problema intelectual aqui. Hoje, os fiéis se dividem entre grupos que seguem tradições e os que optam por diretrizes mais modernas. Talvez seja necessário reconhecer que, infelizmente, exista tal polarização no que toca a esses costumes.

É certo que, tendo em vista o incentivo a uma maior devoção para com a Sagrada Eucaristia, um tempo maior de jejum eucarístico, visando preparar o corpo para receber o fim último da nossa existência, o antigo costume de se manter longas horas longe de alimentos e bebidas é, sem dúvida, mais excelente; o mesmo pode ser dito a respeito das sextas-feiras: que mal faz não comer carne? É realmente necessário comer carne em uma sexta-feira apenas porque a Igreja permite agora comutar? Temos tamanha fraqueza em nossa alma? Certamente sim. Mas esta questão é simples de ser compreendida: o quanto buscamos amar a Cristo? O quanto estamos dispostos a fazer por Ele? As comutações e os afrouxamentos nessas disciplinas são permitidos, mas o que é bom é bom, e o que é melhor é muito melhor. Procuremos oferecer a Cristo o que temos de melhor. Infelizmente, a comutação pode ter trazido um relaxamento nesta questão que foi além do imaginado.

O que o supracitado trecho do Evangelho de São Lucas tem a ver com esta questão?

O fariseu citado na parábola por Nosso Senhor não estava errado. Calma, explico: ele não estava errado em seguir a lei ao pé da letra (em alguma medida lembra alguém que você conhece?); porém, o seu erro estava exatamente em se achar superior por proceder dessa maneira. Aqui, Nosso Senhor deixa muito claro em sua mensagem: quer cumprir a lei? Cumpra. Afinal, ela foi feita para ser cumprida. Porém, a alma que se acha superior a outra apenas por cumprir “tão fielmente” a lei não se torna melhor; antes, peca gravemente.

As palavras da Imitação de Cristo podem nos ajudar a esclarecer o que o Divino Mestre quis nos ensinar:


“Relanceia sobre ti o olhar e guarda-te de julgar as ações alheias. Quem julga os demais perde o trabalho, quase sempre se engana e facilmente peca; mas, examinando-se e julgando-se a si mesmo, trabalha sempre com proveito. De ordinário, julgamos as coisas segundo a inclinação do nosso coração, pois o amor-próprio facilmente nos altera a retidão do juízo.” (Livro I, cap. 14, n. 1)

 

É preciso também dizer que a alma é dotada de consciência e livre-arbítrio. A alma tem a capacidade de discernir o que é certo ou errado, de fazer ou não fazer algo. O ato da vontade pode ou não ser realizado e, ao ser praticado ou omitido, acarretará uma consequência. Qual seria a consequência de comer carne em uma sexta-feira? Pecado? E qual seria a consequência de não comer carne? Mortificação? Qualquer uma das escolhas ocasionará uma consequência para a alma. Porém, em um desses casos, que à primeira vista poderia ser causa de pecado, pode, de igual modo, não o ser, tendo em vista uma prévia liberação da Igreja ou de um diretor espiritual. Aqui vemos que tal questão não pode ser tratada puramente ao pé da letra, como faziam os fariseus ao lidarem de forma desordenada com os pontos da lei. Uma coisa é certa: a alma que se incomoda com outra que come carne na sexta-feira, sem ao menos considerar questões como consciência, comutação permitida ou orientação de um diretor espiritual, pode facilmente encontrar nisso uma ocasião de pecado. Não somos juízes das almas alheias. Temos obrigação apenas de cuidar daquelas que, como leigos, nos foram confiadas por Deus, como esposa ou marido e filhos, por exemplo.


Filho, não sejas curioso nem te preocupes com cuidados inúteis. Que tens tu com isto ou aquilo? Segue-me. Pois que te importa saber se fulano é assim ou assado, ou se sicrano procede e fala deste ou daquele modo? Tu não és responsável pelos outros, mas de ti mesmo deves dar conta; por que, pois, te intrometes nisso? Eu conheço a todos e vejo tudo o que se faz debaixo do sol; sei como cada um procede, o que pensa e quer e a que fim tende sua intenção. Deixa, pois, tudo ao meu cuidado; conserva-te em santa paz e deixa o inquieto agitar-se quanto quiser. Sobre ele recairá tudo o que fizer ou disser, porque não me pode enganar. (Da Imitação de Cristo, livro III, cap. 24, n. 1)

 

Não somos juízes de nossos irmãos. Uma questão disciplinar que deveria ser tratada com simplicidade não pode se tornar matéria para discussões sem fim, como se fosse um tema teológico-dogmático sobre o qual a Igreja ainda não se pronunciou. Sobre este caso, a Igreja, sim, se pronunciou, e é tão simples quanto parece. Não é necessário perder o precioso tempo que temos, e que deveria ser usado para progredirmos nas virtudes e na santidade, com discussões sobre disciplinas que já estão plenamente definidas pela Igreja.

No fim, não é o rigor exterior que santifica a alma, mas a caridade com que se vive a verdade.

Entretanto, se a discussão for se tal disciplina é válida por ter vindo da “Igreja moderna”, então entraremos em outros tópicos que não cabem neste artigo.


Rodrigo Luna

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