O pecado venial é realmente leve?
Em 2013, enquanto ainda me encontrava entre os Frades Franciscanos da Imaculada, chegou em minhas mãos um livreto intitulado "O Pecado Venial", do Servo de Deus André Beltrami, sacerdote e Salesiano de Dom Bosco. A edição era de 1920, com folhas bastante desgastadas e um português bastante arcaico. Recebi a incumbência de transcrever todo o texto e atualizá-lo para uma linguagem mais atual. O arquivo que organizei em 2013 eu tenho até hoje, e me recordo que até poucos anos atrás este livreto não era tão fácil de ser encontrado para venda na internet. Hoje já é possível comprá-lo em várias lojas online.
Falar sobre o pecado venial é sempre bom, porém, nem sempre será útil a todas as almas. Como eu passei pela fase dos escrúpulos naquela mesma época, as palavras do livro tiveram um duplo efeito em minha alma: o primeiro era que me fazia desejar buscar a perfeição trilhando uma vida ascética; o segundo é que a partir de determinado ponto passei a analisar os meus exames de consciência como se fossem listas de compras, como se o mais importante fosse listar o maior número possível de pecados veniais e defeitos em minhas confissões, e a partir daí, caí no buraco do escrúpulo.
Hoje olho para trás e vejo tudo o que passei como um grande aprendizado. O livreto é realmente bom, e apesar de tê-lo enterrado por muito tempo e até desencorajado a sua leitura, hoje o enxergo com bons olhos e vejo o quão proveitoso ele pode ser para o auto conhecimento e progresso espiritual.
Tendo o leitor sido alertado,
segue o primeiro capítulo.
Sei que será muito bom para a sua alma.
Boa leitura!
Rodrigo Luna
CAPÍTULO I
Preconceitos grosseiros
Brado sublime dos Santos: As heroicas Catarinas de Gênova e de Sena
Morrer, mas não mentir
A luz do tempo e a luz da eternidade
Grosseiros preconceitos nós nutrimos acerca dos pecados veniais, que muito prejudicam nosso progresso espiritual. Persuadidos de que seja um nada, o cometemos todo o dia, a toda a hora, e, direi, quase todos os momentos sem pensar na malícia que encerra, nas tristes consequências que acarreta e nos castigos que merece da Eterna Justiça. “É uma culpa venial”, dizemos se não com palavras, ao menos com ações; “é uma imperfeição que se lava com um pouco de água benta, com um Sinal da Cruz ou com uma jaculatória; não há necessidade de atender a coisas tão mínimas e fazermo-nos escrupulosos”. “Se nem temos sequer a obrigação de confessá-lo, e não nos priva da graça de Deus! Pobre de mim! Se tivesse que guardar-me das mentirinhas, dos gracejos com os outros, das pequenas gulodices... Não me ficaria tempo nenhum para outra coisa.” “Teria que estar continuamente a refrear-me, passaria dias tristes e correria o risco de cair em escrúpulos e perder a cabeça”.
Porém, não é assim que raciocinam os santos. Considerando tudo à luz divina, eles nutriram um horror extremo pelo pecado venial, fizeram-lhe guerra de morte, prontos a sofrer qualquer suplício a cometê-lo. Ouve o concerto harmonioso que se levanta de suas vidas e que oferece esplêndida homenagem à justiça e à bondade divina, ao passo que contrasta estranhamente com a nossa vergonhosa conduta.
“Prefiro, exclama Santo Edmundo, lançar-me numa fogueira ardente a cometer advertidamente algum pecado contra o meu Deus”. Este outro brado nos chega das amenas terras da ligúria.
É Santa Catarina de Gênova que lança um olhar sobre a imensidade azul do oceano e pensa no mar de fogo que submerge os condenados do Inferno como os peixes na água; aí está como fazem os corações amantes, que veem em toda a parte os vestígios do ente amado, elevam o seu pensamento a Deus, oceano de bondade, meditam sobre os benefícios feitos aos homens e sobre a malícia do pecado, e então, como que despedaçados pela dor, exclamam: “Ó Deus, para fugir do pecado, ainda mais leve, eu me lançaria num abismo de chamas e aí ficaria por toda a eternidade antes que cometê-lo para pode daí sair”.
A Seráfica Virgem de Sena, Santa Catarina, saída de um ditoso êxtase, no qual havia contemplado a beleza de uma alma na graça de Deus e a miséria daquela que está manchada de pecado, escrevia: “Se a alma, imortal por sua natureza, pudesse morrer, para matá-la, bastaria o aspecto de um só pecado venial que lhe desbotasse a beleza”.
Todos sabem o que aconteceu àquele santo que, condenado à morte e procurado por ordem do Imperador, acolheu os soldados que o buscavam e lhes ofereceu comida e abrigo durante a noite. De manhã, antes de partirem, lhe perguntaram se por acaso tinha notícia de um cristão que não vivia conforme as leis do Império e que por isso, havia sido condenado à morte. O interrogado então confessou ingenuamente ser ele mesmo o procurado e se declara pronto a acompanhá-los à corte. Os soldados, porém, possuídos de gratidão pelos benefícios recebidos, aconselharam-lhe a fuga, assegurando que diriam no tribunal não tê-lo encontrado. O santo então recusou prontamente para não dar aos soldados a ocasião de mentirem, e corajoso se entregou ao martírio.
O glorioso Santo Inácio de Loiola assim instruiu seus discípulos: “Quem é zeloso da pureza de sua consciência, deve confundir-se na presença de Deus pelos pecados mais leves, considerando que Aquele contra qual são cometidos, é infinito nas suas perfeições: o que os agrava de uma malícia infinita”.
Educado nestes santos princípios, Santo Afonso Rodrigues fez ressoar as paredes do convento em que era porteiro com esta admirável e heroica prece, que acha ainda eco fiel em todos os corações verdadeiramente abrasados de zelo pela glória de Deus: “Antes sofrer, ó Senhor, todas as penas do Inferno que cometer um só pecado venial”. Na história da Igreja se encontram frequentemente almas generosas que preferem sacrificar a própria vida, a resgatá-la a custo de uma mentira ou de um pecado venial. Assim pensavam e obraram os santos. Quem tem razão, o mundo ou estes heróis, observadores das máximas do Evangelho? Nós que avaliamos as coisas à luz do tempo ou eles que as consideram à luz inefável da eternidade? Nós, que, com o curto olhar só vemos a terra com seus bens mesquinhos ou eles que com pupilas de águia contemplavam os futuros gozos imortais do Céu? Iremos vê-los nos capítulos seguintes.

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